• Júlia Orige

As intermitências da Morte - Resenha



José Saramago é um extremamente conceituado escritor Português, sua obra, além de profundamente crítica, traz ao leitor uma experiência completamente nova de leitura, visto que o autor tem uma escrita única e impecável. Exclusiva, pode-se dizer.

As intermitências da morte é uma estória contada a partir do momento em que a morte, cansada de ser sempre a vilã da história, optou por encerrar suas atividades num determinado distrito. Naquele país, não haveriam mais mortes. A princípio, a ideia parecia genial. Imagine viver sabendo que sua família jamais morreria? Um espetáculo!

Talvez por alguns momentos pudesse ser um real espetáculo. O problema vem quando entra-se no cálculo todos os doentes terminais, que da cama não poderiam mais sair – pois a doença também não se curou. E as agências funerárias, do que viveriam? E quem já está pronto para morrer, o que faz agora, que a morte cancelou seus ofícios?

A narrativa traz inúmeros pontos de vista ao longo de suas páginas: desde a família do interior

que não sabe o que fazer com seus entes moribundos, a reação governamental frente a tamanha adversidade, como sobreviverão as casas de repouso e agências funerárias e até os republicanos, que se aproveitaram da situação para difundir seu pensamento – afinal de contas, qual o sentido de um governo eterno, uma vez que o rei nunca morre?

Há também o surpreendente fator de levar tantas partes de uma populaçãp a um único fato. O

governo, as indústrias, a telecomunicação, o povo, todos têm que lidar com aquela circunstância: agora ninguém mais morre. E não há ponto sem nó, o narrador conduz perfeitamente a história, sem deixar “ponto sem nó”.

A obra, em si, é esplêndida. Certamente te faz questionar inúmeros pontos de algo que você nunca levou em conta. Não que eu perca meu tempo pensando sobre a morte, mas seguramente há inúmeros tópicos trabalhados que eu nunca havia sequer imaginado a existência – e que me fizeram pensar e analisar em abundância.

Para quem nunca leu nada do autor, a experiência de leitura pode passar de incrível à incrivelmente desgastante. Não considero algo impossível, mas sim uma leitura que exige bastante de você e que é desafiadora e encantadora por inúmeros motivos: primeiramente, o escritor optou por uma “não tradução”, ou seja, o livro foi mantido e publicado no Brasil com o português de Portugal. Eu, particularmente, achei isso o máximo! Se você nunca teve contato com o português de Portugal, essa pode ser uma ótima oportunidade para ter uma chance de conhecê-lo. Em contrapartida, isso pode ser um ponto baixo para você que não tem um vocabulário muito extenso.

Outro ponto – que eu confesso ser um que me levou mais para o lado negativo – é a escrita do autor. Tudo bem, é algo excêntrico e exclusivo e torna a experiência de leitura única, mas, para mim, não deu. O autor escreve praticamente sem parágrafos e não há uso de qualquer elemento que diferencie um diálogo do resto do texto. Isso, por vezes, me confundiu bastante e me fez ler várias vezes a mesma parte a fim de entender o que se passava naquele trecho.

É preciso fazer uma leitura extremamente atenta da obra de Saramago para obter um resultado completamente positivo. Talvez eu, com apenas 18 anos, não tenha ainda a atenção suficiente para me dar completamente bem com a escrita do autor – mas isso está longe de significar que a minha relação com as obras do autor acaba aqui.

Não deixe de acompanhar o blog Lisboa na Ponta dos Pés para receber novas atualizações sobre a série “leitura clássica”!

Até a próxima!


Nathália Orige, 18, catarinense. Criadora do blog www.nathaliaorige.com


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