• Júlia Orige

Porque tratar homofobia como doença não é a solução



Na última segunda-feira o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho concedeu uma liminar que, na prática, permite o "tratamento" de "reversão sexual" legalmente por profissionais da psicologia. O juiz não afirmou explicitamente que homossexualidade é doença, ou que a cura gay funcione. Porém, essa decisão traz uma discussão que até então esteve um tanto quanto silenciosa, servindo de base para um comportamento violento: a ideia de que a homossexualidade é um desvio de conduta, causado por algo (sabe-se lá o que) e reversível.

Os argumentos contra a homossexualidade são variados, geralmente baseados em uma ordem natural que de natural tem muito pouco. "Dois iguais não fazem filho" e héteros só fazem sexo para engravidar, não é? "Não é natural, os animais não fazem isso", bem, acontece que fazem. E convenhamos, de natural nossa sociedade tem muito pouco. Ou essa tela em que você está lendo isso agora não é artificial? Eu posso rebater todos os argumentos, mas não é isso que interessa aqui hoje. Este texto não é para quem tapa os olhos do filho para não ver o beijo gay.

Este texto é para nós que na tentativa desesperada de rebater a ideia de uma doença gay acusamos o homofóbico de doente. Sim, eu me incluo nisso. Nós, como quem diz "puta é a sua mãe" tivemos como reação colocar a homofobia como doença. Mas não é verdade. Homofobia não é doença, é ideologia, é o resultado de uma sociedade patriarcal que não sabe lidar com o outro. É falta de empatia. É falta de informação. E é ódio. Mas não é doença.

Colocar algo como doença, ao mesmo tempo que invalida o discurso, também o coloca como inevitável e o seu porta-voz como alguém que não teve opção - ou que no máximo, pode fazer um tratamento. Alguém que sofre com aquilo. O homofóbico não sofre com a sua homofobia. Ele faz os outros sofrerem. E ouso dizer que ele tem consciência disso e não se importa.

E é aqui também que entra a questão da homossexualidade como patologia. Ser gay não é uma escolha, mas tampouco pode ser doença. Nenhuma doença pode trazer felicidade. Mas amar alguém pode.

Gays sofrem. Sim. Mas ninguém sofre pelo simples fato de ser gay. Sofre porque é apontado na rua. Porque os pais expulsam de casa. Porque não pode sair para um encontro sem que um velho fique observando atrás de uma árvore, como se fosse a coisa mais absurda que ele já viu: duas garotas se beijando. Sofre porque é olhado de lado, porque apanha e porque não pode ter os direitos que os héteros tem.

Atração, amor, sexo. São todas coisas boas. O ruim de ser gay é o preconceito. É externo ao fato de ser gay. É social. Ninguém quer deixar de ser gay. Quer deixar de sofrer as consequências sociais de ser gay. Porque gostar de pessoas do mesmo sexo não significa mais que isso, em primeira instancia. Ninguém quer abandonar as borboletas na barriga, os sorrisos bobos de paixão, os beijos eletrizantes ou a felicidade de ter quem ama ao lado.

Mesmo na situação hipotética de um pedido desesperado de cura gay, por um gay, essa pessoa estaria buscando acabar um sofrimento causado por fatores externos e sociais. O desejo ou o amor por si só não causa sofrimento. Não é uma doença. E, o mais importante: não pode ser curado. Não é reversível, porque não há para onde voltar, sempre se foi.

A homofobia é uma cultura. Como aquela do estupro. Chamar o estuprador de louco é por si só um problema. O estuprador não é louco e não está doente, ele está performando poder. Ele acha que aquilo é de alguma forma certo, que ele tem direito. Porque ele vem de uma sociedade que constrói as coisas dessa forma. Nós viemos, infelizmente.

Homofobia é a mesma coisa. É cultura ensinada, é passada por osmose social. E só é questionada por quem precisa fazê-lo. Porque nenhum hétero precisou passar por uma crise de identidade em relação à sua sexualidade ou questionar a cultura heteronormativa. Não é por mal. Só não precisou passar por esse processo e assim não consegue se colocar no lugar de quem passa. Homofobia é uma cultura que precisa ser desconstruída. Mas chamá-la de doença não vai resolver nada.


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