• Júlia Orige

Uma tradição acadêmica, ou o preço de fazer amigos na universidade



Quem vai a Portugal em setembro não consegue ignorar os desfiles de calouros com camisetas de burros ou os enérgicos veteranos de capas pretas. Essa é a Praxe. Tradição acadêmica portuguesa que já dura X séculos. É como o trote no Brasil, só que dura muito mais tempo e é levado muito mais à sério. Foi em Portugal que J. K. Rowling se inspirou para vestir seus estudantes de Hogwarts. As vestes originais são bem parecidas com o resultado obtido nos filmes. Mas não há casas, em vez disso são divididos em cursos. E não se usam o tempo todo, só em momentos de praxe (dependendo do curso são algo como semanais). O que é um alívio, já que o traje é bem quente, os sapatos machucam e as meias rasgam. Ainda que usado por pouco tempo, quem usa o traje feminino não escapa das bolhas nos pés. Claro que a tradição da praxe varia de curso para curso e pode ser mais dura em uns e mais leve em outros. Mas, independente de variações que possam ocorrer, o conceito da praxe é o mesmo. É como um treinamento. Provas que se devem passar para conseguir ascender hierarquicamente num sistema. No geral são situações humilhantes, mais ou menos intensas, onde os calouros devem mostrar sua confiança nos veteranos, seu desejo ardente de estarem ali e sua submissão. O argumento é que quem sabe passar por esses momentos, sendo um bom calouro, obedecendo e fazendo o que lhe é mandado, estará mais bem preparado para os desafios da vida, do emprego e o que quer que venha pela frente. Depois de um ano usando a mesma camiseta, com uma imagem de burro, para que o calouro tenha consciência de que não é nada além daquilo que lhe é gritado aos ouvidos: merda, há uma cerimonia de passagem, que leva ao próximo nível de hierarquia. Só podem passar a veteranos aqueles que foram bons calouros e se submeteram às brincadeiras durante o ano. E então a lógica muda, são eles quem mandam agora. Mandam nos próximos que entrarem no curso. Mas não deixam de haver milhares de regras para os veteranos. Incluindo todo um código de vestimenta. A meia fina deve ser a número 7, bem aquela que rasga só de olhar. Os sapatos tem de ser de um modelo específico e os sutians só podem ser usados na cor bege ou branca. A capa tem de ser usada no ombro esquerdo ou no braço direito, ou devidamente traçada no corpo. Não se pode ficar a mais de 7 metros da capa quando se tem o traje vestido. Os calouros não devem ser tratados como amigos nos momentos de praxe. São só calouros. A praxe ensina disciplina, assim como aquela que é ensinada no exército. Mas na praxe ninguém entra para seguir carreira. Entra-se na praxe porque é a maneira mais fácil de conseguir amigos. Não digo a única, porque dá para se virar sem, mas é muito mais difícil. Afinal, os eventos de curso que existem são parte da praxe e mesmo as festas são organizadas pela praxe. E ainda que você seja admitido nas festas, sem estar na praxe, você fica deslocado. A toda hora são gritados cantigos de praxe, feitos concursos e competições das quais você não tem nada a ver. A praxe não é obrigatória, mas é compulsória. Há duas forças, a cultura universitária que compele à praxe e o senso comum incentivado pela mídia que diz: pessoas morrem na praxe, é cruel. Mas o ponto também não é esse. Sim, já pessoas morreram na praxe, porque foi longe demais. Porém isso não significa que todos os praxantes defendam aquilo ou deixem que coisas más aconteçam, nesse nível. Os praxantes não são monstros cruéis. Mas são pessoas que favorecem um ciclo de vingança: eu sofri, você também vai. Como pais que batem em seus filhos para prepará-los para quando a vida bater neles. A praxe é uma tradição que já não corresponde ao momento que vivemos. É uma preparação que caleja, para não doer depois. Mas não precisa doer nunca, se não ensinarmos as pessoas que pisar nos outros é normal e que elas devem se preparar para serem pisadas e um dia poderem se vingar pisando em outros. São estagiários que baixam a cabeça para um chefe cruel, para anos depois encarnarem o mesmo papel, pelo prazer de ver a nuca do outro, pelo poder. Eu sei que nem todos que estão na praxe creem nessa lógica. E a questão também é essa. A praxe é isso, a única maneira de não ser assim é não sendo praxe, sendo outra coisa completamente diferente. Mas muita gente entra na praxe simplesmente porque quer fazer amigos. Não porque acredita que se deva humilhar pessoas. Porque a praxe é compulsória. Mesmo a formatura gira em torno dessa tradição acadêmica. É feita uma cerimonia chamada de Queima das Fitas. Todos participam, mas é claro que quem está na praxe usa o traje. A capa é uma maneira de separar, mostrar que se é diferente, e afirmar o orgulho de fazer parte daquele sistema. Quem está na praxe tem um grito, tem voz. Quem não está, bem, quem mesmo? Nem conheço. Ele tá no curso?


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