• Júlia Orige

Um relato sobre Angola



Agora estão em alta as "pulseiras da vida", onde você coloca um pingente para cada coisa importante que já fez na vida. Bem, vou escrever sobre as coisas importantes que já fiz na vida, é mais barato. Creio que o homem é um produto do seu meio e eu também o sou, posso ver muito claramente o que formou o que sou hoje. Angola mudou minha vida, foi uma das experiências mais marcantes.

Meu blog é sobre turismo, sim, mas é também sobre o mundo. Muito mais que um passeio, viagens são experiencia, uma oportunidade de ver como as pessoas vivem do outro lado do mundo. Angola não é um país turístico, embora seja belo.

Morei em Luanda durante dois anos, fui bastante nova, tinha 10 anos, mas era também bastante consciente. Digo isso porque a maioria das pessoas acha que eu não me lembro quando falo que tinha 10 anos, mas eu me lembro como se fosse hoje. Amadureci muito desde então, porém eu já tinha plena consciencia do que fazia e do que via. Meu pai, que é professor universitário, foi convidado para ajudar na instalação de uma universidade em Luanda, através da Sonangol, uma petrolífera de lá. Aventureiros, fomos todos.

Angola conquistou sua independencia em 75, com um empurrão da revolução dos cravos. Apesar de ter se livrado dos portugueses, não veio a paz. Houve uma guerra civil que acabou só em 2002. Tem noção do quão recente é isso? Fui para lá em 2007. O medo e uma nova guerra ainda era eminente, estive lá durante a primeira eleição presidencial depois do fim da guerra. Os supermercados ficaram vazios, as pessoas estocaram comida pro caso de começar algo. Falar de África não deve ser ruim, apesar de acontecerem coisas ruins, África é beleza também, é diversidade. Gosto muito de observar outras culturas e não deve haver lugar mais rico em cultura. Claro que temos a pobreza, as doenças, a ausência de direitos humanos e a fome. Mas não culpemos África, que foi fatiada pela Europa, que foi sangrada como a América Latina, só que com o agravante de um maior período de tempo.

Luanda é um caos, mas é linda. As pessoas sorriem, são felizes. O trânsito chega a ser cômico para não ser trágico e raramente há acidentes. Há mulheres andando nas ruas, com seus bebês no colo, suas crianças na mão e produtos para vender na cabeça. Elas não parecem tristes. São felizes porque acabou a guerra, porque apesar de terem visto coisas horriveis, sobreviveram. É um mundo totalmente diferente, mesmo a parte rica da cidade. Morei em um condomínio, no bairro Talatona. Não era uma casa chique, era grande, mas nada demais.Tudo é muito caro e o aluguel uma fortuna.

A universidade em que meus pais trabalhavam era ao lado o Belas Shopping. Um shopping muito bom, grande, com um cinema com horários muito malucos e tinha até Bob's! E um restaurante que eu gostava muito e nunca mais encontrei por aí o American's Hot Dog, mas eu não comia cachorros quentes lá.

Fala-se português, não o do brasileiro e nem do português, fala-se o do angolano. Incrível como uma língua pode se ramificar e ter tantos sotaques. Todos falam português e é comum falarem línguas africanas, como o kimbundo.

Eu passei a estudar em casa. Há um colégio, Anglo Americano, que funciona à distância. Basicamente eu recebia as apostilas e materiais pelo correio e enviava as provas e atividades feitas de volta. As escolas que há em angola não seriam uma boa solução para mim porque não conseguiria validar na volta e ficaria atrasada. Esse período estudando em casa foi bom pra mim, o material era muito difícil, para compensar a falta de aulas presenciais e controle, aprendi muita coisa. Mas isso, é claro, acarretou em falta de colegas. Como eu morava em um condomínio logo apareceram amigos, que moravam por ali também. Conheci pessoas muito legais e interessantes. Li esses dias algo sobre "as pessoas que a vida te dá a oportunidade de conhecer". Bom, o que sou hoje devo à essas pessoas, tanto as que conheci em Luanda quanto na Europa e no Brasil.

Eu vivia em casa, na universidade e, eventualmente, no shopping. Saíamos para passear, às vezes, fomos à Cabo Ledo, uma praia muito bonita, ao Miradouro da Lua, e à alguns restaurantes diversos.

Luanda me impressionou muito a princípio. Depois me acostumei, a vida é diferente em cada canto, mas no fim todos tão fazendo o mesmo; sobrevivendo.

Tínhamos uma vida muito agradável. Algumas empregadas passaram por nossa casa, três delas significam muito para mim. A Rosa, a Celeste e a Cília. Eram minhas amigas e aprendi muito com elas. Espero um dia voltar a vê-las. Foram, além de tudo, o meu elo com os angolanos.

"Sei hoje, acho que já sabia antes, que todas as vidas são excepcionais. Fernando Pessoa transformou a biografia prosaica de um pequeno funcionário de escritório num Livro do Desassossego que é, talvez, a obra mais interessante da literatura portuguesa."- O Vendedor de Passados / Sócrates Dáskalos

Eu amo o conhecimento, as pessoas e a história. Angola tem a história de África nas veias. Exploração, neocolonialismo, Portugal e escravidão. É um povo manchado pelo sangue, pela chibata e pelas bombas. Mas é também a casa das lendas, da cor, da liberdade, da natureza e de toda a humanidade que é possível aos humanos. Angola tem qualquer coisa de magia. Quero ainda voltar para registrar a beleza daquele povo com minha câmera.

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Eu com 10 anos e um Imbondeiro


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